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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O SENTIMENTO DE CULPA




Para falar  sobre culpa, vamos a Bíblia conhecer a história de Davi  que está relatada em 2 Samuel 12:1-13. Vamos voltar a cidade de Jerusalém, mais especificamente para  o palácio do rei Davi, há muito tempo. O rei estava sentado em seu trono e parecia estar de mau humor. De repente, os guardas do palácio trouxeram o profeta Natã. Natã tinha recebido uma mensagem de Deus para Davi. Era uma mensagem urgente. O rei se dispôs a ouvi-la imediatamente.  Mas, sabiamente, o profeta começa contando uma história simples:

- Havia dois homens que moravam numa cidade. Um era rico, o outro pobre. O homem rico possuía muitos rebanhos e manadas. O homem pobre possuía apenas uma pequenina ovelha, uma ovelha que havia crescido com seus filhos e se tornado como outra filha para ele. Um dia, o homem rico recebeu uma visita em casa e resolveu lhe oferecer uma ótima ceia. Mas, ao invés de escolher um animal de seu próprio rebanho para a ceia, ele pegou a ovelha do homem pobre e a matou.

Como vivia em uma sociedade agrária, Davi, ao ouvir a história, ficou furioso:

- Quanta injustiça! – ele se levanta rapidamente e proclama ruidosamente – “... Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso.”

Mas aí, Natã acaba com a indignação justa de Davi com quatro palavras. O profeta estende sua mão e diz:

- Você é o homem.

Na mesma hora, Davi percebe que ele condenou a si mesmo. Ele se lembra de Bate-Seba. Sim, ele, o monarca rico com todo seu poder, simplesmente teve que ter aquela mulher. Ele teve que roubá-la de Urias, seu marido devotado. E depois, para esconder seu adultério, ele arrumou para que Urias fosse morto. Agora, Davi percebe quão cruelmente agiu. Sua culpa o invade e ele declara humildemente:

- Eu pequei contra o Senhor.

Nessa história podemos ver uma diferença muito importante entre a culpa bíblica e a culpa que muitas vezes carregamos como uma nuvem escura sobre as nossas cabeças. O sentido da culpa criado pela Palavra de Deus é quase sempre algo muito específico. Natã, o profeta, apontou seu dedo para um pecado específico, adultério, que precisava ser resolvido. A palavra de Deus, através dele, foi uma flecha acertando o alvo do coração perturbado de Davi.

Para aqueles que crêem em Deus, existe apenas um tipo de culpa: é a flecha, a flecha da Palavra de Deus que atinge um alvo específico. Ela aponta para um pecado específico. Ela aponta para o pecado que precisamos confessar e abandonar. Foi Deus quem mandou Natã para o palácio de Davi com uma mensagem direta e expressa. Quando Natã contou sua história contundente para Davi, e o rei sentiu que a flecha era para ele, ele poderia ter ficado na defensiva. Ele poderia ter inventado que cometeu o adultério num momento de fraqueza. Ele poderia ter acusado a Bate-Seba de seduzi-lo.  Mas Davi não fez nada disso. Ele simplesmente disse, “eu pequei contra o Senhor”. Ele assumiu sua culpa imediatamente.

Deus tenta nos mostrar como lidar com uma culpa específica. Quando recusamos, a culpa apodrece e infecciona toda a nossa vida. Tornamo-nos incapacitados por inúmeros pensamentos ansiosos. Deus quer que enfrentemos a flecha. Ela poderá arder um pouco no começo, mas isto faz parte do processo de cura. É muito melhor enfrenta a flecha do que seguir padecendo sobre a nuvem escura da culpa.

O arrependimento de Davi por causa de seu pecado poderia ter se transformado em desespero. Ele foi humilhado quando seu adultério se tornou de conhecimento público. Não tinha mais jeito de desfazer o erro. Não havia jeito de trazer o homem, que ele havia traído, de volta. Davi apenas podia fazer uma coisa: confessar seu pecado a Deus, e ele o fez com uma eloquência maravilhosa no Salmo 51. Ele abriu seu coração com essas palavras:  “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares”(Salmos 51:4).

Davi reconheceu que a flecha de Deus tinha atingido seu coração. Ele sabia que Deus estava certo. Ao confessar nossos pecados, nós estamos literalmente concordando com Deus. Dizemos, “sim Senhor, o Senhor está certo ao apontar esta ação como errada.” Com esta atitude, merecemos o perdão de Deus.

Quando Davi começou a ver além do seu pecado, para o Deus com o qual concordava, ele começou a ter esperança. Ele viu um Deus que perdoa e ele clamou para o Senhor: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado” (Salmos 51:1-2). Davi olhou além do seu pecado. Ele olhou para o perdão de Deus, pois, esta é, afinal, a razão para Deus mandar Suas flechas. Elas não entram fundo no coração, elas apenas nos levam para a grande graça de Deus.

Graças a Deus existe uma solução para nossas culpas. Não precisamos ficar presos a elas. Não precisamos mais ser reféns de suas exigências vagas e inatingíveis. Não precisamos passar nem mais um dia sofrendo, em vez disso, concordamos com a Palavra de Deus e confessamos nossos pecados e ficamos livres para sermos felizes.

Shalom!

Maria A. Paiva Corá

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

DESCOBRIMENTO DO BRASIL



As expedições que aproximaram do continente
Enfrentando  desconhecida corrente
Foi levado ao Brasil, como por acidente
Descobrindo nova terra e nova gente.


Aqueles  navegadores foram em frente
Deslumbrados com o clima quente
Desembarcaram apressadamente
Felizes com o que descobriram casualmente.


Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei imediatamente
Uma carta relatando tudo, bem contente
Dizendo trata-se de uma terra diferente
Como se tudo tivesse acontecido naturalmente.
              
                                                          Maria A. Paiva Corá

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA



Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas  máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!


E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!


Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores e fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.


Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.


A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-se com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.


Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria…

(Manuel Bandeira. Carnaval)





Nota:  Manuel Bandeira, ao emitir um juízo acerca do gosto popular, na terceira estrofe,  assume uma postura análoga à de Joãozinho Trinta, quando esse afirmou: “Pobre gosta de luxo”.

Carnaval, publicado em 1919, justifica a alcunha de “São João Batista do Modernismo Brasileiro”, dada a Manuel Bandeira porque o movimento  foi inaugurado no Brasil oficialmente com a Semana da Arte Moderna em 1922. Este texto de Manuel Bandeira já traz características do Modernismo (irregularidade estrófica, métrica e rímica) sendo-lhe precursor como São João Batista o foi de Jesus Cristo, por isso ele foi chamado de o São João Batista do Modernismo.

Não podemos afirmar que  se trata de um fato verídico ocorrido com o poeta em uma terça-feira de carnaval mesmo porque a  palavra “Sonho” no título sugere o contrário. [Maria A. Paiva Corá]

PASTORAL



                                             François Boucher , Pastoral

François Boucher (1703-1770), extraordinário pintor e decorador francês, foi diretor da Academia de Belas Artes de Paris, sendo nomeado, em 1765, primeiro pintor do rei Luís XV. Embora tenha vivido num século dominado pelo Barroco, ia além desse estilo e adotou o estilo Rococó, caracterizando pelo excesso de detalhes decorativos e por uma requintada elegância.


           
                                                                          François Boucher           

O amor é um dos sentimentos humanos mais complexos, que nos leva a sensações e atitudes inexplicáveis. Daí a magia que ele exerce sobre os artistas. Veja por exemplo o quadro  Pastoral de François Boucher. O rapaz parece absorvido pela figura da mulher, que envolve seus pensamentos; ele só tem olhos para ela.

Vamos observar agora os detalhes no quadro que revelam o comportamento romântico do jovem, que além do olhar apaixonado, ele está com um pequeno pássaro na mão e parece oferecê-lo à amada, humildemente, como se fosse um presente, ou apenas para agradá-la.

Quanto a atitude da jovem, ou seja, sua postura no quadro, podemos dizer que ela sente-se atraída pela atenção do rapaz que a envolve com carinho, por isso põe-se à vontade, a observá-lo com doçura, em seu gesto de amor.

Trata-se do local de um ambiente aberto, um cenário campestre, totalmente ermo; há uma elevação, em meio à natureza simples e rústica, onde se vêem algumas árvores grandes, frondosas e poucos arbustos.

Nesse lugar isolado e tranqüilo, os namorados estão sentados no chão. Eles usam roupas coloridas,  alegres, mas sem luxo; parecem jovens camponeses. A moça tem os pés descalços e uma coroa de flores nas mãos. Completando a cena primaveril, há uma cesta de flores, no chão, próxima aos dois.

Sem dúvida o autor conseguiu reproduzir a cena “Pastoral” de forma muito expressiva.  Uma bela obra de arte!

Shalom!

Maria Paiva Corá

Fique agora com o vídeo François Boucher - French Rococo Painter




terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

PAUSA



Mário Quintana


   Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.

   Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?

   Com algum ciclista tombado?

   Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?
   E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.

   E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Dom Quixote ou Sancho? – vive uma vida mais intensa e, portanto mais verdadeira…

   E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida.

   Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor.

   E agora?

   Por enquanto, ante a atual  insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti:

    “Io sonno un poeta o sonno un imbecile?”

   Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia…

   A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.

   E daí?

   – Mas o melhor – pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança – , o melhor é repor depressa os óculos no nariz.


A vaca e o hipogrifo. São Paulo,  Círculo do Livro.




                                         MÁRIO QUINTANA (1906-1994)

                                         Poeta sul-rio-grandense. Buscando sempre uma poesia simples e                                             despojada, publicou mais de uma dezena de livros.


NOTA:  Nesta pequena crônica, Mário Quintana reflete sobre suas atividades de escritor e de leitor de poesia. O tema do texto é colocado de maneira direta e, aparentemente, até simplista: escrever e ler poesia não é uma grande perda de tempo? E, radicalizando, pergunta com Stechetti: escrever e ler poesia não é uma imbecilidade?

O autor interrompe  as duas atividades ao pousar os óculos sobre a mesa: a leitura de obras alheias (“leitura de coisas feitas”) ou a criação de suas próprias obras (“feitura de minhas próprias coisas”).

As imagens que ocorrem ao poeta ao contemplar os óculos sobre a mesa é a imagem de um inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas e a de um ciclista tombado.

A inquietação provocada pela necessidade de captar a “imagem-poema” dos óculos leva o autor a pensar em sua profissão de escritor e de poeta. Mais ainda que isso,  leva-o a pensar na função da poesia. Seu senso comum (Sancho Pança) entra em conflito com o seu senso poético (Dom Quixote).

Segundo o senso comum, os óculos são apenas aquilo que parecem ser: duas lentes fixadas em uma armação.

Segundo o autor, existe em nós a necessidade de recriar as coisas e a vida em imagens para que as coisas tenham mais vida e para que a vida seja vivida mais intensamente.

O autor não consegue explicar essa necessidade. Para ele essa necessidade é um “eterno mistério” – um “enigma”.

Diante da “insolubilidade da coisa”, o autor resolve passar o problema para o leitor. Segundo ele, o poeta não tem a função de resolver e sim de propor enigmas: de fazer o leitor pensar, e não de pensar por ele.

“...o melhor é repor depressa os óculos no nariz” é o conselho dado para o leitor, significando o  senso prático  do autor aconselhando-o a retomar o trabalho e deixar de lado as questões insolúveis como a função do poeta e da literatura que lhe ocorrem à mente. [Maria Paiva Corá]





A primeira namorada



Fernando Sabino

Leda. Estavam namorando? Ele não saberia dizer: emprestou-lhe um livro chamado “Travessuras de Juca e Chico”. Muito engraçado. Leda leu, achou muito engraçado, devolveu com uma manchinha de manteiga.

- Desculpe.

- Não tem importância é para manchar mesmo.

- Por que você não põe capa? Eu encapo todos os meus livros.

- Eu não.

- Pois eu sim. Sou a primeira das meninas. Você não é nem o quinto ou o sexto dos meninos.

Ser o primeiro. Ficava em casa estudando, fazendo exercício. Dona Estefânia, estranhando, maravilhada:

- Não sei o que deu nesse menino. Agora é isso toda noite. Eu não dizia? Eu não dizia?

- Dizia o quê, mulher? – resmungava seu Marciano.

- Que ele endireitava? Verdadeiro milagre.


Milagre do amor. Amava Leda, mas não ousava sequer pensar em beijá-la. Beijo não era bom assim feito diziam. Amando em silêncio. Às vezes se declarava:

- Leda, eu gosto muito da sua letra.

- Leda, eu gosto muito do seu estojo.

- Leda, eu gosto muito.

De noite, dormia abraçado com ela, era bem melhor. Leda cariciosa, Leda travesseiro. Iniciava-se naquilo que iria ser, vida a fora, o motivo de suas horas mais alegres e mais miseráveis: imaginava tudo – passeios, conversas, piqueniques, banho na piscina. Um dia salvou-a de morrer afogada. Leda tinha piscina em casa. Leda era queimada de sol, devia ser branquinha debaixo do vestido – imaginava tudo. Um dia imaginou um presépio.

- Papai quero fazer um presépio.

Era Natal. O pai ajudou Eduardo a fazer o presépio - seu Marciano mesmo ajeitou o papel fingindo de montanha, serrou a madeira, colocou o espelho, fingindo de lago, com dois patinhos de celulóide, trouxe da cidade as figuras. Eduardo compareceu com dois soldadinhos de chumbo, espingarda ao ombro, para montar guarda à manjedoura. Mas a finalidade última – chamar Leda para ir ver – não foi atingida. O menino não teve coragem e foi melhor assim. Na casa dela havia de ter um presépio muito mais bonito. E achava a sua casa velha demais para ela: tinha um vidro partido da janela da sala, a pintura do lado de fora da sala descascando – a sala de jantar mesmo era antiquada, móveis velhos e gastos – era preciso reformar os móveis, reformar a casa, reformar o mundo, para merecer a presença de Leda.




Nota: Estamos diante de um texto narrado na terceira pessoa. Os personagens centrais são Eduardo e Leda.

Eduardo começou a estudar mais do que costumava. Essa foi a mudança do comportamento dele que impressionou a sua mãe. E a causa de tal mudança foi o “milagre do amor”. Eduardo “desligava-se” da realidade exterior através da imaginação.

A fuga pela imaginação é uma das características marcantes da personalidade de Eduardo: “Iniciava-se naquilo que iria ser, vida a fora, o motivo de suas horas mais alegres e mais miseráveis...”.

Ocorre aqui a idealização da mulher: Eduardo idealizava a figura de Leda. Ele foge da realidade através de sua imaginação. Seu comportamento baseia-se, sobretudo na emoção. Podemos então concluir que o amor é supervalorizado por ele.

Então, podemos ver que Eduardo, a personagem central da narrativa lida, apresenta, fundamentalmente, as seguintes características psicológicas:

- seu comportamento é baseado, sobretudo na emoção;
- evade-se da realidade através da imaginação;
- ele supervaloriza o amor.

Essas são as características do estado de alma romântico. Trata-se de um modo de sentir e interpretar a realidade e de um modo de agir. Esse romantismo (modo de sentir a realidade, estado de espírito) difere do Romantismo (estilo de época). Como estado de espírito, modo de sensibilidade, tipo de comportamento, o romantismo caracteriza-se por uma atitude profundamente emotiva diante da vida, e pode surgir em qualquer momento histórico, não estando sujeito a datas. Por isso, pode refletir-se na produção artística de qualquer época. Na literatura, por exemplo, o comportamento romântico aparece registrado desde a Antiguidade até os nossos dias.
                Mulher com turbante, do pintor romântico português Domingos Antônio Sequeira.



Já o Romantismo entendido como estilo de época diz respeito à tendência geral da vida e da arte que predominou na Europa durante a primeira metade do século XIX. Nesse caso, o nome Romantismo designa um estilo artístico delimitado no tempo.

Diante do exposto, fica claro que é possível ocorrerem manifestações da sensibilidade romântica até em obras de nosso século, como vimos pelo texto A Primeira Namorada, de Fernando Sabino – publicado pela primeira vez em 1956.  [Maria Paiva Corá]

Criação de Adão




Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564), mais conhecido simplesmente como Miguel Ângelo ou Michelangelo, Foi um pintor, escultor,poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do ocidente.
Ele desenvolveu o seu trabalho artístico por mais de setenta anos entre Florença e Roma, onde viveram seus grandes mecenas, a família Medici de Florença, e vários papas romanos. Iniciou-se como aprendiz dos irmãos Davide e Domenico Ghirlandaio em Florença. Tendo seu talento logo reconhecido, tornou-se um protegido dos Medici, para quem realizou várias obras. Depois fixou-se em Roma, onde deixou a maior parte de suas obras mais representativas. Sua carreira se desenvolveu na transição do Renascimento para o Maneirismo, e seu estilo sintetizou influências da arte da Antiguidade clássica, do primeiro Renascimento, dos ideais do Humanismo e do Neoplatonismo, centrado na representação da figura humana e em especial no nu masculino, que retratou com enorme pujança. Várias de suas criações estão entre as mais célebres da arte do ocidente, destacando-se na escultura o Baco, a Pietà, o David, as duas tumbas Medici e o Moisés; na pintura o vasto ciclo do teto da Capela Sistina e o Juízo Final no mesmo local, e dois afrescos na Capela Paulina; serviu como arquiteto da Basílica de São           Pedro implementando grandes reformas em sua estrutura e desenhando a cúpula, remodelou a praça do Capitólio romano e projetou diversos edifícios, e escreveu grande número de poesias.

Ainda em vida foi considerado o maior artista de seu tempo; chamavam-no de o Divino, e ao longo dos séculos, até os dias de hoje, vem sendo tido na mais alta conta, parte do reduzido grupo dos artistas de fama universal, de fato como um dos maiores que já viveram e como o protótipo do gênio. Michelangelo foi um dos primeiros artistas ocidentais a ter sua biografia publicada ainda em vida. Sua fama era tamanha que, como nenhum artista anterior ou contemporâneo seu, sobrevivem registros numerosos sobre sua carreira e personalidade, e objetos que ele usara ou simples esboços para suas obras eram guardados como relíquias por uma legião de admiradores. Para a posteridade Michelangelo permanece como um dos poucos artistas que foram capazes de expressar a experiência do belo, do trágico e do sublime numa dimensão cósmica e universal.

Quanto a sua obra “Criação de Adão”, (1511-1512)   representando Deus criando Adão, que, segundo o Cristianismo, foi o primeiro ser humano. O estudo do corpo e do caráter humano são características da época. Percebe-se, comparando com questões contemporâneas de estudo do humano, que, ao traçar o corpo, Michelangelo reflete seu conhecimento sobre anatomia.  Ele dominou a escultura e o desenho do corpo humano maravilhosamente bem, pois tendo dissecado cadáveres por muito tempo, assim como Leonardo da Vinci, sabia exatamente a posição de cada músculo, cada tendão, cada veia. Então ele evidencia o volume delineando os músculos com arte no traçado das linhas e com o uso da perspectiva - técnica através da qual os artistas conseguem reproduzir os espaços reais sobre uma superfície plana, dando a noção de profundidade e de volume.

Assim como outras obras renascentistas, o tema presente é a questão religiosa, bem como o ideal humanista e o conhecimento científico. A pintura é feita com contrastes de cor, sugerindo uma iluminação. O jogo de contrastes também é responsável pela sugestão de volume dos corpos, pois permite destacar na obra os elementos mais importantes e obscurecer os elementos secundários. A obra sugere que as linhas verticais, horizontais e diagonais tenham sido copiadas da realidade, assumindo, verdadeiramente, as características do período.

Podemos identificar as figuras de Deus e do homem. Podemos localizar  à esquerda, a figura de Adão e, à direita, Deus. A identificação pode ser comprovada com elementos das próprias personagens: o homem apresenta muita semelhança com o ser humano comum, está sozinho e recebendo o “dom da vida” através do dedo de Deus; enquanto isso, Deus está rodeado de anjos, é mais velho, está vestido e está no ar, dando a impressão de estar voando.

Quanto às cores, podemos observar  que azul e verde fazem fundo para a figura do homem. Há uma relação com a frase “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Gênesis 1:26).

Podemos associar a cor verde às plantas e a cor azul às águas dos mares, oceanos, rios e lagos. Assim, é possível inferir que essas cores estão próximas do homem e comprovar sua supremacia sobre os outros elementos da natureza.

Podemos interpretar o encontro das mãos como Deus dotando o homem de vida, já que este foi feito à imagem e semelhança de Deus.

Esta pintura foi criada por Michelangelo, provavelmente nos últimos meses do ano de 1511, e faz parte das cenas bíblicas que decoram o teto de Capela Sistina, na Itália, em Roma, ao lado de outras cenas concebidas na época do Renascimento.

Atualmente a obra deve apresentar rachaduras ocasionadas pelo tempo, mas trata-se de uma das obras mais famosas e belas  de Michelangelo,  a Criação de Adão e recebe destaque pelo conjunto de fatores que apresenta.

Shalom!

Maria Paiva Corá